A poça d’água - Jornal Animal

Busca
Ir para o conteúdo

Menu principal:

A poça d’água

Colecionador > Parte 2
Sergio Valério
 
A poça d’água estava bem ali e o cão se aproximou, abaixou a cabeça e bebeu como se fosse a mais pura das águas.
         A lua que parecia mergulhada na poça, estremeceu ao toque da língua do cão e só aos poucos retornou à sua imagem estática, depois que o animal seguiu seu caminho.
         No sofá da casa ao lado, um outro cão encostava a cabeça no colo de sua dona, sonolento, vendo as imagens da novela das nove.
         O cão que havia saciado a sua sede seguiu pelas ruas, parando em alguns postes para marcar o “seu” território. Sim! Aquele era o seu território, pois ele não tinha dono e nem uma casa para morar e, desta forma, tudo que tocava, podia considerar seu.
         A dona do cão no sofá levantou-se para buscar algo para comer e trouxe um petisco para o seu animal.
         Algumas luzes da cidade ainda se mantinham acesas pelas festas de final de ano e exatamente por isso foi mais fácil encontrar entre os restos de comida na lata de lixo, algo que interessou o cão das ruas.
         A novela estava em sua cena mais emocionante e o cão, embora não entendesse o diálogo, aproximou-se mais de sua dona, pois a sentiu inquieta com o que acontecia entre a vilã e a mocinha da Globo.
         Algumas horas depois, os panos enrolados deixados por um mendigo serviam de cama para o cão que já havia matado a sua sede e fome.
         Ao lado da cama de sua dona, o cão parecia sorrir com os seus olhos fechados.
         O outro cão também sonhava e próximo às feridas do seu focinho, um pálido sorriso também se desenhava, talvez pelas lembranças ainda vivas do seu antigo lar, já quase apagadas desde o dia em que foi deixado em uma rua qualquer por ter se tornado velho demais para brincar.
 
Busca
Voltar para o conteúdo | Voltar para o Menu principal