O Apagão - Jornal Animal

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O Apagão

Colecionador > Parte 2
Sergio Valério
 
Por volta das 22h30, o computador simplesmente desligou e as luzes do apartamento como se solidárias, também. Marcos levantou-se e foi até a janela e a cidade de São Paulo parecia coberta por um negro véu e apenas algumas luzes de emergência insistiam em querer clarear a cidade.
Os semáforos estavam todos apagados e os faróis dos carros tentavam iluminar as ruas e avenidas que se entregavam aos que arriscavam cruzá-las.
Marcos ainda tentou fazer alguma coisa, afinal de contas todos nós estamos condicionados a não ficar parados para não perdermos o precioso tempo para que ele não escorra entre os nossos dedos. Foi inútil, pois absolutamente não havia nada a fazer a não ser sentar no sofá e esperar que a energia retornasse.
Neste instante, Pim se aproximou de Marcos, aliás como sempre fazia com o seu dono, porém desta vez, Marcos não tinha nada o que fazer e, por isso, acariciou a cabeça do seu cão.
         Lá de baixo, da rua, se ouviam alguns gritos, talvez de assaltos ou de brincadeiras dos homens que tomavam cerveja no bar da esquina, mas Marcos parecia não mais se importar com nada, a não ser em permanecer ao lado de Pim. O cachorro não fazia absolutamente nada, pois parecia querer aproveitar intensamente o toque das mãos do dono em sua cabeça, o que não acontecia já há muito tempo.
         No rádio de pilha do vizinho, o ministro tentava explicar o inexplicável, no elevador um casal, sem pensar em claustrofobia, curtia o momento a sós com as câmeras desligadas, na esquina um táxi permanecia em seu ponto com a sua luz ligada, a espera de um passageiro, enfim, a vida continuava com ou sem energia.
         Marcos e Pim permaneceram ali, em plena paz, até que alguém levantou os disjuntores do Brasil para que tudo voltasse ao que era. Horas depois, alguns aparelhos se queimavam no retorno da energia e Marcos voltaria para o seu computador, enquanto Pim se isolaria em sua casinha.
         O apagão pode ter todas as razões ruins para que não o queiramos em nosso dia a dia, porém tudo serve para alguma coisa, não é mesmo?
 
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